Pesquisadora do Butantan lidera desenvolvimento da primeira vacina brasileira contra a dengue

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Créditos: Foto/Divulgação

Imunizante de dose única é resultado de anos de pesquisa e já está em distribuição.

A primeira vacina 100% brasileira e de dose única contra a dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan, começou a ser aplicada na população nas últimas semanas. Este marco científico é o resultado de anos de dedicação da pesquisadora Neuza Frazzati, que liderou a equipe responsável por trazer uma nova esperança no combate à doença no país. O imunizante, denominado Butantan-DV, representa um avanço significativo na saúde pública nacional, prometendo proteger milhões de pessoas e aliviar a pressão sobre o sistema de saúde.

A dengue é um desafio persistente no Brasil, com mais de 18 mil mortes e 25 milhões de casos registrados desde os anos 2000, conforme dados da matéria original. Considerada uma doença negligenciada por afetar principalmente países tropicais e em desenvolvimento, a pesquisa para combatê-la foi limitada por décadas. A chegada da Butantan-DV, a única vacina contra a dengue de dose única no mundo, posiciona o Brasil na vanguarda da inovação em saúde, oferecendo uma solução nacional para um problema de longa data.

A trajetória da pesquisadora Neuza Frazzati no Instituto Butantan, iniciada na década de 1980, foi fundamental para o sucesso do projeto. Com uma carreira dedicada ao desenvolvimento de vacinas, Neuza já havia sido pioneira na criação de uma vacina contra a raiva em humanos, licenciada pela Anvisa em 2008. Esse trabalho inovador, que substituiu tecidos de origem animal por células Vero no cultivo viral, rendeu-lhe o prêmio Péter Murányi-Saúde e forneceu a experiência crucial em cultivo viral, estabilidade e exigências regulatórias que seriam decisivas para o desafio da dengue.

O desenvolvimento da Butantan-DV foi impulsionado por um aumento nos casos de dengue entre 2006 e 2007, que registrou mais de 800 mortes. O principal desafio era criar um imunizante eficaz contra os quatro sorotipos do vírus da dengue sem desequilibrar a resposta imunológica. Após quatro anos de pesquisa intensiva em laboratório, com mais de 200 experimentos, a equipe de Neuza conseguiu uma vacina eficaz e de dose única em 2011. A estabilidade para distribuição em um país continental foi resolvida com a liofilização, transformando a vacina em pó para ser reconstituída no momento da aplicação. A Anvisa aprovou a vacina no final de 2025, e as primeiras doses foram distribuídas em janeiro deste ano, com previsão de alcançar a população de 15 a 59 anos até o segundo semestre. A vacina demonstrou eficácia de cerca de 75% contra a doença e superior a 90% contra formas graves e hospitalizações, em um estudo com mais de 16 mil pessoas.

A introdução da Butantan-DV representa um futuro promissor para o Brasil no combate à dengue. Neuza Frazzati expressa que a vacina é a melhor chance do país contra a doença, com a imunização de 50% da população podendo levar a uma queda drástica no volume de casos, que em 2025 foi de 1,4 milhão. A pesquisadora projeta que uma cobertura vacinal completa pode zerar o número de mortes, que em 2025 foi de 1,7 mil pessoas. Em contraste com a vacina Qdenga, importada, de duas doses e com alto custo e volume limitado, a Butantan-DV é uma solução nacional, de dose única e com potencial para maior cobertura e menor custo ao Sistema Único de Saúde (SUS). Para Neuza, este projeto é mais do que um marco científico; é a realização de uma missão pessoal de “deixar uma vacina de dengue que pode amenizar o sofrimento das pessoas” e evitar mortes, reforçando o orgulho na ciência nacional.

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