
A comunidade global de saúde foi confrontada com dois achados simultâneos e preocupantes em fevereiro de 2026, que reposicionaram o debate sobre a mpox, uma doença infecciosa viral. A Organização Mundial da Saúde (OMS) relatou a detecção de um vírus recombinante inédito, que os testes laboratoriais convencionais não conseguiram identificar corretamente. Paralelamente, os resultados de um grande estudo com o medicamento tecovirimat, principal antiviral utilizado contra o vírus da mpox, revelaram sua ineficácia, ampliando a incerteza no cenário da doença.
A nova cepa do vírus da mpox é formada pela fusão de elementos de duas linhagens genéticas já conhecidas: o clado Ib, associado a surtos mais recentes em países africanos, e o clado IIb, ligado ao surto global de 2022. Esta recombinação genética representa um desafio significativo para a vigilância epidemiológica e para as estratégias de tratamento. O tecovirimat, por sua vez, vinha sendo empregado de forma empírica no tratamento da mpox, especialmente em casos graves ou em pacientes com maior risco de complicações, devido à sua eficácia contra outros vírus do gênero Orthopoxvirus.
A preocupação com a nova cepa recombinante é acentuada pelo fato de que, nos dois casos confirmados até agora, no Reino Unido e na Índia, os testes convencionais de PCR falharam em caracterizar o vírus. Apenas o sequenciamento genômico completo revelou a natureza recombinante da cepa, que já se presume estar mais disseminada, envolvendo ao menos quatro países em três regiões da OMS. A distinção entre os clados é crucial, pois o clado IIb apresentou letalidade inferior a 0,1% em países de alta renda, enquanto o clado Ib tem sido relacionado a quadros mais graves, com letalidade estimada entre 3% e 5% nos casos suspeitos e podendo chegar a 11% entre crianças e pessoas imunocomprometidas. No Brasil, a confirmação do clado Ib em São Paulo, em março de 2025, já havia alterado a natureza do risco no país.
No final de fevereiro de 2026, o ensaio clínico STOMP, publicado no New England Journal of Medicine, trouxe resultados desanimadores sobre o tecovirimat. O estudo, que envolveu 344 adultos imunocompetentes com mpox confirmada do clado II, demonstrou que o medicamento não reduziu o tempo de resolução das lesões, não aliviou a dor e nem acelerou a eliminação do vírus. A resolução clínica ocorreu em 83% dos pacientes tratados com tecovirimat e em 84% do grupo placebo, conforme os dados apresentados por Acker et al. em 2026. Essa conclusão foi corroborada pelo estudo PALM007, realizado na República Democrática do Congo, que chegou à mesma conclusão para o clado I, enfraquecendo a justificativa para o uso rotineiro do medicamento em adultos. A principal lacuna terapêutica, portanto, permanece aberta justamente para grupos de maior risco, como imunocomprometidos, gestantes e crianças, que não foram adequadamente contemplados nesses estudos.
Diante desse cenário, medidas imediatas são consideradas essenciais. A vigilância epidemiológica precisa incorporar o sequenciamento genômico de forma mais sistemática para identificar cepas recombinantes. Na assistência, os protocolos clínicos devem ser revistos à luz das novas evidências, com o tecovirimat não se sustentando como uso rotineiro em pacientes imunocompetentes, enquanto alternativas terapêuticas e acompanhamento cuidadoso são urgentes para os grupos mais vulneráveis. Do ponto de vista da prevenção, a vacinação dos grupos prioritários, com imunizantes como a Jynneos (MVA-BN), que mostrou eficácia entre 70% e 85% na prevenção de casos sintomáticos, não deve esperar um novo surto para ganhar escala. A prevenção também inclui medidas básicas como evitar contato direto com lesões e buscar atendimento médico em caso de sintomas como febre, dor de cabeça, dores musculares, gânglios inchados e lesões na pele. Klinger Soares Faíco Filho, fundador do InfectoCast, reforça a importância da educação médica contínua sobre o tema.


